Novo modelo de títulos de crédito já está em produção assistida e começa a mudar processos financeiros, fiscais e tecnológicos das empresas
A Duplicata Escritural deixou de ser um projeto regulatório distante e entrou em uma nova etapa de implementação no Brasil.
Em julho de 2026, a B3 iniciou a produção assistida do novo ecossistema, permitindo que empresas e financiadores passem a operar em condições reais de mercado enquanto ajustam processos, sistemas e integrações. A obrigatoriedade será implantada de forma escalonada, começando pelas grandes empresas em julho de 2027.
A mudança interessa diretamente às áreas Financeira, Fiscal, Contábil, Tesouraria, Contas a Receber, Contas a Pagar e Tecnologia.
E há uma razão para isso.
A Duplicata Escritural não representa apenas a digitalização de um título que já existe. Ela cria uma nova infraestrutura para emissão, escrituração, registro, negociação, titularidade e liquidação de recebíveis, com maior rastreabilidade e integração entre empresas, escrituradores, registradoras e financiadores.
Para grandes organizações, o desafio será fazer essa nova jornada conversar com os processos corporativos que já existem.
O que é Duplicata Escritural?
A Duplicata Escritural é a versão digital da duplicata tradicional.
A duplicata é um título de crédito relacionado a uma venda de mercadorias ou prestação de serviços com pagamento a prazo. No modelo escritural, o título é emitido e registrado eletronicamente em sistemas autorizados, permitindo maior controle sobre sua existência, titularidade e movimentação.
A modalidade foi instituída pela Lei nº 13.775/2018, que estabeleceu a emissão de duplicatas sob a forma escritural. A regulamentação do funcionamento do sistema passou ao Banco Central, que posteriormente estabeleceu as regras para a atividade de escrituração e o ecossistema de duplicatas escriturais.
Na prática, o novo modelo busca substituir processos baseados em documentos físicos e controles fragmentados por uma infraestrutura digital, rastreável e interoperável.
Por que a Duplicata Escritural está ganhando tanta atenção agora?
A resposta está no calendário.
Depois de etapas de desenvolvimento, testes individuais e testes integrados, o mercado entrou em 2026 na fase de produção assistida.
A B3 informou que iniciou essa etapa em 15 de julho de 2026. Durante esse período, empresas e financiadores podem operar com duplicatas escriturais, testar processos e ajustar integrações antes da entrada da obrigatoriedade.
O cronograma anunciado pela B3 prevê:
- 2026: produção assistida;
- julho de 2027: início da obrigatoriedade para grandes empresas;
- janeiro de 2028: médias empresas;
- julho de 2028: pequenas empresas.
A implementação gradual abre uma janela importante para preparação tecnológica e operacional.
Para uma grande empresa, esperar até a obrigatoriedade para começar a testar integrações pode significar disputar recursos de TI, Fiscal e Financeiro com dezenas de outros projetos regulatórios.
Duplicata Escritural é obrigatória?
A obrigatoriedade será implantada de maneira escalonada.
No momento, o mercado está na fase de produção assistida, na qual a participação antecipada permite que empresas testem o novo modelo em ambiente real antes da adoção obrigatória.
Para as grandes empresas, o primeiro marco está previsto para julho de 2027.
Isso muda a natureza do projeto.
A discussão deixa de ser:
“Quando precisamos começar?”
E passa a ser:
“Quanto tempo precisamos para preparar nossos processos, sistemas e integrações?”
O que muda para as empresas com a Duplicata Escritural?
O impacto não ficará restrito ao departamento financeiro.
A nova estrutura envolve informações que nascem na operação comercial e fiscal e percorrem diferentes etapas até chegar à gestão do recebível.
Em uma venda a prazo, por exemplo, existe uma cadeia de informações que pode envolver:
operação comercial → documento fiscal → duplicata → escrituração → registro → aceite/manifestação → negociação ou financiamento → pagamento → liquidação
A duplicata escritural tende a tornar essa jornada muito mais estruturada e rastreável.
Segundo o Banco Central, em geral, a emissão das duplicatas escriturais será baseada em documentos fiscais eletrônicos. O novo modelo também permite maior controle da titularidade e rastreamento das negociações.
Isso significa que a qualidade dos dados na origem passa a ter importância ainda maior.
O documento fiscal passa a ter um papel ainda mais estratégico
Um dos pontos que merece atenção das empresas é a conexão entre documentos fiscais eletrônicos e recebíveis.
A duplicata não nasce isoladamente.
Ela está associada a uma operação comercial que precisa ser comprovada e corretamente representada nos sistemas corporativos.
Por isso, inconsistências em informações como:
- CNPJ;
- valor;
- data de emissão;
- vencimento;
- identificação do comprador;
- identificação do fornecedor;
- número da nota fiscal;
- condições comerciais;
- dados de pagamento;
podem gerar impactos em etapas posteriores da jornada.
Para empresas que processam milhares ou milhões de documentos, garantir a qualidade dessas informações manualmente se torna cada vez menos viável.
É justamente nesse ponto que automação, integração e governança passam a ser estratégicas.
Duplicata Escritural e NF-e: qual é a relação?
Essa é uma das principais dúvidas que começam a surgir entre as empresas.
A NF-e e a Duplicata Escritural não são o mesmo documento e não cumprem a mesma função.
A NF-e é um documento fiscal eletrônico que registra uma operação comercial perante o Fisco.
A duplicata é um título de crédito relacionado a uma venda de mercadoria ou prestação de serviço a prazo.
No novo ecossistema, entretanto, os dados fiscais passam a ter papel importante na formação e validação das informações utilizadas na jornada da duplicata escritural. O próprio Banco Central informa que, em geral, a emissão das duplicatas escriturais será baseada em documentos fiscais eletrônicos.
Por isso, empresas precisam olhar para esses processos de maneira integrada.
Quem é o sacador e quem é o sacado?
Outra dúvida importante para as empresas é entender quem participa da operação.
O sacador é, em termos simplificados, a empresa que vende o produto ou presta o serviço a prazo e possui o direito de receber aquele valor.
O sacado é o comprador ou tomador do serviço que deverá realizar o pagamento.
O Banco Central estabelece que a duplicata escritural é emitida pelo fornecedor de bens ou serviços que possui o valor a receber e que esse fornecedor precisa contratar um escriturador, diretamente ou por meio de terceiros.
Para o sacador, a digitalização amplia a possibilidade de controle sobre seus recebíveis.
Para o sacado, cria uma nova realidade de gestão de títulos que precisa ser integrada aos processos de contas a pagar e tesouraria.
O que muda para o Contas a Receber?
Para empresas que vendem a prazo, talvez o impacto mais evidente esteja no Contas a Receber.
A duplicata escritural permite uma visão mais estruturada dos títulos e de sua movimentação.
Entre os processos que ganham importância estão:
- emissão;
- escrituração;
- registro;
- aceite;
- alteração;
- negociação;
- transferência de titularidade;
- financiamento;
- cobrança;
- pagamento;
- liquidação.
A digitalização também pode facilitar o acesso ao crédito, aumentar a transparência e reduzir riscos de fraude, segundo o Banco Central.
Isso transforma a gestão dos recebíveis em uma questão cada vez mais tecnológica.
E o que muda para o Contas a Pagar?
Para o comprador, a transformação também é relevante.
A empresa passa a precisar controlar de forma estruturada os títulos que representam suas obrigações financeiras.
Isso exige capacidade para:
- identificar os títulos;
- conferir sua origem;
- relacioná-los às operações comerciais;
- controlar vencimentos;
- acompanhar alterações;
- validar titularidade;
- evitar pagamentos indevidos;
- manter histórico das movimentações.
A rastreabilidade torna-se especialmente importante porque o novo ecossistema permite acompanhar a titularidade e as negociações realizadas com os títulos.
O que a Duplicata Escritural muda no SAP?
Para empresas que utilizam SAP, a discussão não deveria ser limitada à criação de uma nova interface.
O verdadeiro desafio é integrar a nova jornada ao ecossistema corporativo existente.
Em grandes organizações, a operação pode envolver:
SAP → Fiscal → Contas a Receber → Tesouraria → Bancos → Escriturador → Registradora → Financiador
Além disso, informações originadas em documentos fiscais precisam permanecer consistentes durante todo o processo.
Isso coloca quatro temas no centro do projeto:
1. Integração
Os sistemas precisam trocar informações de maneira segura, estruturada e rastreável.
2. Qualidade dos dados
Informações incorretas na origem podem comprometer etapas posteriores da operação.
3. Governança
A empresa precisa saber o que aconteceu com cada título e manter histórico dos eventos relevantes.
4. Automação
Quanto maior o volume de operações, menor a viabilidade de controles manuais.
A Duplicata Escritural vai exigir integração entre Fiscal e Financeiro
Historicamente, muitas empresas trataram documentos fiscais e recebíveis em sistemas e áreas diferentes.
A NF-e ficava sob responsabilidade do Fiscal.
A duplicata era acompanhada pelo Financeiro.
O pagamento era tratado pela Tesouraria.
E os dados de financiamento podiam estar em plataformas externas.
A evolução do modelo escritural tende a aproximar essas informações.
A empresa passa a precisar de uma visão integrada da operação:
venda → documento fiscal → título → recebível → negociação → financiamento → pagamento
Essa integração pode representar uma mudança importante na arquitetura de processos corporativos.
Por que a automação passa a ser tão importante?
Imagine uma empresa que emite dezenas de milhares de documentos fiscais por mês.
Agora imagine que uma parte significativa dessas operações gere títulos a prazo.
Controlar cada relação manualmente significa criar uma quantidade enorme de tarefas, conciliações e pontos de intervenção.
A automação permite estruturar processos como:
- captura de documentos;
- validação de dados;
- geração de informações;
- integração com ERP;
- monitoramento de eventos;
- conciliação;
- tratamento de exceções;
- rastreabilidade.
O objetivo não é apenas reduzir trabalho.
É criar uma operação capaz de escalar sem multiplicar a complexidade.
Sua empresa está preparando o SAP para a Duplicata Escritural?
A adequação não começa na registradora. Ela começa na qualidade dos dados, nos documentos que originam as operações e na integração dos processos corporativos.
O AddTax, da Addvisor, atua na automação de processos fiscais e documentais, com integração nativa ao SAP ECC e S/4HANA, ajudando grandes organizações a capturar, validar, processar e rastrear documentos e informações críticas da operação.